| Vista de onde morei por 8 meses |
Havia conhecido Jan há mais ou menos três anos, pela internet. Era ela que estava me esperando no aeroporto e era na casa dela que eu ficaria até me aprumar nessa nova cidade.
Uma família tipicamente baiana. Moram no Engenho Velho da Federação e têm o coração do tamanho do mar da Bahia.
No caminho pra 'casa', naquele início de noite, a cidade já me parecia um tanto estranha. Não lembrava de ter visto tanta pobreza da última vez que estive ali. “Bem-vinda à realidade”, pensei comigo.
Quando chegamos ao nosso destino, parei, perplexa. Como assim? Eu iria morar ali? Nunca havia sequer entrado em uma favela e agora estava ali, dentro de uma. E era onde ficaria, ou ao menos, passaria a noite.
Comecei a pensar em registros que tinha comigo sobre esse tipo de lugar – violência, bala perdida, assédio e coisas desse tipo. Imagino hoje a minha cara de assustada naqueles momentos e rio... O estereótipo cria em nós preconceitos idiotas.
Não entendam isso, nem naquela época, como discriminação. Eu estava em um bairro negro, em uma família negra, na periferia de Salvador. O oposto do que era comum pra mim, até então.
Cheguei e todos estavam me esperando, muitos vieram me ajudar, conversar comigo. Era muita gente e todos me pareciam muito iguais, não distinguia um do outro. Eu continuava meio estarrecida, sem conseguir dizer muitas palavras. Estava assustada.
Na verdade eu queria sair dali o quanto antes.
Logo veio a hora de dormir, a luz apagou, a lágrima caiu. Eu queria que chegasse logo o outro dia pra eu resolver aquela confusão toda.
…
O outro dia chegou, e outro e outro e outro mais. Todos me tratavam muito bem. Eu comecei aos poucos entender a mecânica de vida deles. E realmente era muito diferente da minha, mas não menos bonita.
A princesinha saiu do castelo e chegou onde deveria ter chegado. Amor igual ao que eu recebi ali, só o vindo da minha família de sangue.


