domingo, 17 de abril de 2011

Primeiro dia

Vista de onde morei por 8 meses
Quando o avião pousou em Salvador o choro já estava contido. O coração é que continuava em polvorosa.

Havia conhecido Jan há mais ou menos três anos, pela internet. Era ela que estava me esperando no aeroporto e era na casa dela que eu ficaria até me aprumar nessa nova cidade.
Uma família tipicamente baiana. Moram no Engenho Velho da Federação e têm o coração do tamanho do mar da Bahia.

No caminho pra 'casa', naquele início de noite, a cidade já me parecia um tanto estranha. Não lembrava de ter visto tanta pobreza da última vez que estive ali. “Bem-vinda à realidade”, pensei comigo.

Quando chegamos ao nosso destino, parei, perplexa. Como assim? Eu iria morar ali? Nunca havia sequer entrado em uma favela e agora estava ali, dentro de uma. E era onde ficaria, ou ao menos, passaria a noite.
Comecei a pensar em registros que tinha comigo sobre esse tipo de lugar – violência, bala perdida, assédio e coisas desse tipo. Imagino hoje a minha cara de assustada naqueles momentos e rio... O estereótipo cria em nós preconceitos idiotas.

Não entendam isso, nem naquela época, como discriminação. Eu estava em um bairro negro, em uma família negra, na periferia de Salvador. O oposto do que era comum pra mim, até então.

Cheguei e todos estavam me esperando, muitos vieram me ajudar, conversar comigo. Era muita gente e todos me pareciam muito iguais, não distinguia um do outro. Eu continuava meio estarrecida, sem conseguir dizer muitas palavras. Estava assustada.

Na verdade eu queria sair dali o quanto antes.

Logo veio a hora de dormir, a luz apagou, a lágrima caiu. Eu queria que chegasse logo o outro dia pra eu resolver aquela confusão toda.


O outro dia chegou, e outro e outro e outro mais. Todos me tratavam muito bem. Eu comecei aos poucos entender a mecânica de vida deles. E realmente era muito diferente da minha, mas não menos bonita.

A princesinha saiu do castelo e chegou onde deveria ter chegado. Amor igual ao que eu recebi ali, só o vindo da minha família de sangue.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

(Entre Parênteses) Balanço

Avaliar 2010 não é tarefa tão fácil. Foi um ano forte. Não foi um ano fácil. Mas foi um ano muito além das minhas expectativas iniciais.

Logo em janeiro ele mostrou que não estava pra brincadeira. Mudança de trabalho, novos rumos profissionais. Logo quando eu cogitava uma volta definitiva a Porto Alegre. Penso que a Bahia me quis aqui um pouquinho mais. E eu fiquei.

Trabalho foi uma das coisas que mais fiz este ano, que mais tomou meu tempo e que mais me deu prazer. Expandi visões, conheci boas pessoas e bons profissionais e fiz coisas que realmente queria ter feito.

Consolidei amizades que hoje me são mais claras e me dão a certeza de que são para uma vida toda. Também me afastei de algumas pessoas, não por ter deixado de gostar, mas por ser exigência desse tempo de agora. Tenho certeza que depois a vida reaproxima e a mesma beleza de outrora retornará.

Vi bons shows e boas peças de teatro, mas bem menos do que gostaria. Li poucos livros, escutei muita música, visitei alguns lugares, vi a família várias vezes, me formei e tive a melhor festa da minha vida. Esqueci uma paixão, mas me apaixonei de novo e isso me arrancou bons e largos sorrisos. Caí, levantei, chorei, dancei muito, ri mais ainda. Me decepcionei, aprendi que boas atitudes podem ser má interpretadas, que não é todo mundo que merece um abraço e um sorriso. Confirmei que eu gosto mesmo dessa vida simples, com sossego, doçura e alegria. Não gosto desse “glam” que as pessoas tanto almejam, cuido para não alimentar vaidades que possam surgir e egos que queiram inchar. Entendi que dor de amor dói mesmo, lá no fundo. Mas que dor de decepção dói muito mais. Remédio pra isso? Para a primeira o Tempo, para a segunda ainda não sei responder.

Foi esse mesmo Tempo que me fez entender que as coisas que me aconteceram ao longo desse ano foram as melhores que podiam ter me acontecido. Começo a entender melhor isso agora.

Colhi bons frutos em 2010, mas sei que não foi um ano da melhor colheita. Esse ano foi de plantio. Tudo plantado com boas vibrações, amor e boas doses de carinho e cuidado. Isso não me faz ter dúvidas de que 2011 será o ano que eu quero ter.

Entre Parênteses

Acabo de criar a sessão (Entre parênteses), que não tem necessariamente a função original do Blog, que é contar fatos marcantes da minha históra com a Bahia.
Sem ambicionar ampla leitura, escrevo apenas por essa vontade que às vezes me escapa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ovelha negra?

Poucas vezes eu vi meu pai chorar. Ver, apenas, é bem diferente do que se sentir responsável por lágrimas derramadas. Fazer alguém chorar tem um peso que me beira o insuportável.

Ver meu pai se despedindo de mim, com 19 anos e ainda uma menina, é uma cena que eu não consigo esquecer. Minha mãe que, em meio a uma conversa comigo, desabou em pranto pedindo que eu ficasse também é algo que tenho registrado até hoje.

Já me questionei, já me cobrei muito por ter levado essa dor pra eles. Até que ponto é válido correr atrás das nossas vontades? Um sorriso meu vale mais do que uma lágrima da minha mãe? Não consigo acreditar nisso... Às vezes, penso ser um tanto egoísta.

Minha determinação é uma faca de dois gumes. Ela me leva aonde eu quero. Mas às vezes isso beira uma obstinação exagerada.

Meus pais até hoje não entendem bem o que eu vim fazer tão longe e, em alguns momentos de recaída,  ainda cobram a minha volta. Sentem minha falta e eu entendo isso. É difícil lidar com o fato de que não sou aquilo que meus pais esperavam que eu fosse.

Minha mãe é mais dura comigo. Não coroa muito as minhas vitórias, não joga confete. Eu entendo, ela me quer do lado dela e nada que dê certo aqui contribui pra isso. 

Meu pai não confirma, mas eu sei que ele entende um pouco mais essa minha saída de casa. Se as lágrimas dele naquele 3 de dezembro me são inesquecíveis, o que ele me disse em uma das minhas idas e vindas também é. No aeroporto, numa dessas minhas voltas chorosas, ele me abraça com essas palavras, na tentativa de secar minhas lágrimas “minha filha, se embarcando nesse avião de novo você vai estar feliz, então tá tudo bem. Eu vou estar sempre aqui pra você”.

Estar longe da base é um dos capítulos difíceis dessa história. É o que mais faz balançar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O encontro

Que a Bahia tem um quê de mistério e magia todo mundo sabe, já ouviu falar. Eu não sei se todos já puderam vivenciar o nível de energia das terras de cá. Eu tenho feito isso há seis anos...

A Bahia veio pra mim muito cedo. Com 12 anos eu lia Jorge Amado (escondida) e, a partir daquelas páginas recheadas de ousadia e histórias coloridas de alegria e de sangue, eu quis conhecer todos os becos que Amado descrevia. Eu imaginava como algo especial, quase que transcedental. E é.

Tudo que vinha da Bahia chamava minha atenção. Com 14 anos eu conheci o Circuladô de Caetano e me apaixonei, em seguida Caymmi, Bethânia, João, Gil e todos os ‘populares’ que tomavam todas as ondas sonoras do sul e sudeste do país naquele período (sim, isso também me encantava). Queria ler tudo, ouvir tudo, saber tudo e entender o que é que tinha aqui de diferente, porque é que as pessoas falavam daquele jeito dessa terra.

Claro que eu não descobriria de lá, e eu sabia disso.

Com 14 anos, começou-se a cogitar minha provável festa para o ano seguinte – aquelas que as meninas vestem mangas bufantes, dançam valsa e tudo o que pede essa cerimônia um tanto quanto brega. E então eu fechei o maior carão lá em casa.

Não me interessava em nada ter uma daquelas festas pomposas. Eu queria mesmo era vir à Bahia.

E então, depois de um longo período de discussão, eu vim. Eu vim como uma criança vai ao encontro de uma mãe ao final de um dia de separação. Vim sedenta disso tudo, eu queria entender.

Cheguei numa terça e não por coincidência, dia de benção no Pelourinho. Fomos até lá. Olhava para todos os lados. Eu reconhecia algumas coisas.

E então eu comecei a subir a ladeira que dá na Casa de Jorge Amado. Não consegui.
Em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos eu parei. Não ia mais do que aquilo, não conseguia administrar aquela energia toda. Tudo muito forte pra uma menina de 15 anos. Meu corpo arrepiou, parado em meio àquela miscelânea de cores e sons.
Mostrei aquilo pra minha tia que estava ao meu lado. Ela riu sem dizer nada. Me pareceu que ela entendia aquilo.

Passei alguns dias em Salvador. Em meio a tantas idas e vindas pela cidade, virei pra minha mãe, de frente pra Bahia de Todos os Santos, na Praça Castro Alves e disse que era ali que eu viveria. Claro que, ali, nem eu sabia o peso que isso teria, de fato, anos depois.

A viagem chegou ao fim. Eu voltei pra casa, mas também fiquei aqui. Muito novinha, não conseguia administrar aqueles pensamentos soltos, aquela vontade de voltar, aquela paixão absurda. Eu não entendia, mas me permitia sentir aquilo tudo. Só fui entender essa paixão instantânea um bom tempo depois, quando cheguei aqui pra ficar.


E aí, meu irmão, a história é longa, forte e, deixando a modéstia bem de lado, digna de quem traz a coragem e a determinação como carros de frente.

Esse blog nasceu da minha vontade de resgatar algumas vivências. Quero escrever pra estar em cada história de novo. Hoje, compreendendo tudo muito melhor, de um ângulo muito mais claro. Há muitas histórias interessantes desses 6 anos que estou aqui. Consegui chegar perto daquela Bahia de Jorge Amado e de tantas outras e tudo isso me dimensionou enquanto ser humano. Entendi melhor a magia que tanto falam quando citam a Bahia, mas ainda não entendi todo o mistério.

Espero que vocês gostem...